Portadores da doença planejam o futuro e mostram que é possível ter um filho saudável.
As mulheres que têm o vírus HIV já podem engravidar, praticamente sem riscos de contaminar a criança.
“Eu passava um dia inteiro aqui, uma vez por mês, para tomar remédio na veia”, lembra Micaela Cyrino, da Rede Nacional de Jovens HIV / AIDS. “O meu pai morreu quando eu tinha um ou dois anos de idade, então eu não lembro. Mas a minha mãe morreu, também por causa do HIV, quando eu tinha seis anos de idade”.
“Gravidez é muito bom. Não achava que era assim. Estou gostando muito de ser mãe. Já me sinto mãe. Eu imagino ele correndo, indo com ele ao trabalhado, viajando. É tudo muito bom, tudo novo. Só alegria”, comemora a ativista Marta Fernandes.
Na cidade de Santos, um grupo ligado à Pastoral da Aids, da Igreja Católica, sai às ruas para orientar as pessoas sobre a importância do teste para o HIV.
“Hoje poderia se dizer que o grande desafio é informar as pessoas sobre a epidemia do HIV e orientar as pessoas para que façam o teste do HIV. Dizer para elas claramente onde podem buscar o teste na rede de saúde e dizer que o teste é gratuito e sigiloso”, conta Frei Luiz Carlos Lunardi, da Pastoral da Aids.
Faça o teste da Aids. Foi o que insistimos ao longo dessa série. Insistimos porque a Aids leva de oito a dez anos para aparecer. Mas, quando se manifesta, você já corre o risco de morte. Quanto mais cedo você descobrir que tem o vírus, melhor. Muito melhor. Se você tem a intenção de engravidar, faça o teste antes. Se já estiver grávida, então, nem se fala. Mesmo que o seu marido seja um santo. É um exame pré-natal obrigatório. Você não vai querer transmitir o vírus da Aids para o seu filho, vai?
Redenção, no sul do Pará, é uma cidade de 75 mil habitantes. Lá, vivem os ativistas Marta Fernandes e Greicio Lyra. Catorze anos atrás, Greicio caiu doente com tuberculose. Ao ser internado, descobriu que, na verdade, estava com Aids em estágio avançado. Meses depois, chegou o diagnóstico de Marta, também positivo.
“Eu matei o sonho de ser mãe naquela época. Depois eu comecei a ver que poderia reviver esse sonho. E ano passado decidi ter um filho. Era um sonho nosso que decidimos realizar”, diz. “Tomamos muito tempo para tomar essa decisão. Porque é difícil quando você tem uma doença crônica. É difícil lidar com o preconceito. Foi um processo meio longo.”
“É difícil estipular há quanto tempo sou soropositivo. Para mim, eu sempre soube. Eu não gostava de ficar internada, mas sempre gostei das pessoas do hospital. A gente encontrava com outras crianças. Conheço a doutora Marinella e equipe desde que me trato aqui”, diz Micaela Cyrino.
“Na realidade, ela chegou em um período em que a gente não tinha muita coisa para fazer. Sempre teve uma evolução muito boa, então conseguiu alcançar essa época de tratamento”, conta a infectologista Marinella Della Negra.
Drauzio Varella : À medida que você foi crescendo, tomando uma consciência melhor das suas limitações, de que você dependia de tratamento, teve algum momento em que você notou uma diferença?
Micaela Cyrino: Minhas amigas da escola falavam: “Minha mãe falou que era para eu não brincar com você, porque você tem HIV”. Foi bem pesado para mim quando eu vi que meus amigos começaram a morrer porque não tomavam o remédio. Aí eu senti a doença.
Drauzio Varella: Como você lidou com isso? Você era criança, uma menina.
Micaela Cyrino: Eu comecei a não falar mais sobre o HIV. Eu me fechei um pouco.
Micaela é um símbolo da luta contra a Aids. Adquiriu o vírus no nascimento. Não conheceu o pai e a mãe morreu quando ela era muito pequena. No passado, a transmissão vertical, isto é, da mãe para o bebê, ocorria em mais de 20% dos casos.
“Eu continuei com o mesmo tratamento que eu já estava fazendo. Não parei em nenhum momento. Os médicos têm me orientado a continuar tomando o remédio, tomar no parto também. E o bebê tomar o xarope até 43 dias. E não amamentar. As chances de o beber nascer sadio são de 99%. Vale a pena correr esse risco. E como vale a pena”, conta Marta.
O tratamento da Marta é simples. Ela toma três remédios. De manhã, toma o branquinho. Ela só conseguiu fazer um esquema simples como esse porque descobriu cedo que tinha o HIV. Dessa forma, ela consegue manter a carga viral muito baixa, de modo que ela possa engravidar. Vai nascer um filho sem o vírus da Aids.
“A gente ainda não sabe o sexo do bebê. Se for mulher, vai se chamar Ester. Estou torcendo”, ri Marta.
Rodrigo Arantes, médico da Sae Redenção, pergunta a Marta se ela está tomando o antirretroviral de forma correta. Ela diz que sim. Ele começa a examiná-la.
A mulher que toma os remédios antiHIV durante a gravidez e na hora do parto, o risco de transmitir o vírus para o bebê é próximo de zero. Infelizmente, muitas mulheres dão à luz sem sequer ter feito o teste. Ou porque não faz o pré-natal, ou porque os médicos deixam de pedir o exame. Como conseqüência, em diversas regiões do Brasil, os índices de transmissão materno-fetal continuam vergonhosamente altos.
“A Aids no Brasil não está controlada. A gente ainda tem a transmissão do vírus em uma freqüência significativa. Nós projetamos um número de pessoas que foram infectadas pelo vírus do HIV menor do que era projetado duas décadas atrás. Nós temos a disponibilidade do tratamento com antirretrovirais para todos os brasileiros que precisam. Agora, ainda temos dez mil mortes por ano. Nós ainda temos pessoas que padecem em hospitais. Ainda temos uma tarefa muito grande para fazer. Ainda temos uma luta muito grande pela frente”, explica o infectologista Esper Kallás.
Na preparação da série, passamos cinco meses à procura de uma grávida com HIV positivo disposta a mostrar o rosto na televisão. No Brasil inteiro, Marta foi a única que aceitou. Assim como ela, todos os personagens da série são ativistas que participam de organizações envolvidas no combate à Aids. Pessoas acostumadas a assumir a sua condição em público. Isso quer dizer o quê? Que os portadores do HIV ainda têm muito medo da reação da sociedade. Até quando seremos tão maldosos e ignorantes?
“Boa tarde a todos. Para quem ainda não me conhece, o meu nome é Silmara. Eu sou autora e coordenadora do projeto Blablablá Positivo. Aids é uma doença que surgiu nos Estados Unidos no início dos anos 1980. Ela é causada por um vírus matador. Pelo mundo, atualmente, somos, ao todo, 40 milhões de pessoas infectadas. Eu faço parte dessa estatística”, explica Silmara Retti a um grupo de pessoas. “Acho que o tratamento da Aids não é só ir ao médico e tomar o seu medicamento. É uma adesão à vida.”
“O HIV não faz parte daquilo que diminui o meu futuro”, declara o profssor Samir Amim.
“A gente ficou tão feliz de ter o remédio, de estar bem de saúde, que ninguém pensou que a cura é possível”, diz a ativista Nair Brito.
“Traz a esperança de novos planos, de uma nova vida, de uma vida diferente daquela que a gente projeta depois de receber o diagnóstico”, conta Mara Moreira, da ONG Pela Vida.
“Um conselho que eu daria para um jovem caminhoneiro é: use camisinha. Não tem outro meio”, recomenda o caminhoneiro aposentado Nestor Ramiro de Assis.
“Sonho em casar e ter filhos. Três no mínimo. Eu quero. Estou lutando para que isso aconteça em mundo com menos preconceito”, conclui Micaela.
No consultório, o médico examina Marta, que fica emocionada. “Aqui nós vamos ver a posição do bebê. Essa bolinha é o crânio, e junto estou vendo a coluna dele”, mostra. “É difícil falar com 100% de certeza, mas isso é sinal de que é uma mulherzinha”. Marta vibra e ri.
Dr. Drauzio esclarece dúvidas sobre formas de contágio da Aids
Trinta anos após o surgimento da doença, a falta de informação e o preconceito ainda são os maiores obstáculos à prevenção do HIV
Em São Paulo, funcionava o maior presídio da América Latina, o Carandiru. Mais de sete mil homens. Ali, durante 13 anos, o Dr. Drauzio Varella acompanhou doentes com AIDS: 17% dos detentos eram portadores do HIV.
.
.
A cocaína injetada na veia era a droga da moda. Seringas e agulhas passavam de mão em mão. Sem acesso à camisinha, nas visitas íntimas, os presos infectados transmitiam o vírus para suas mulheres. O cenário era desolador, dentro e fora da cadeia.
O primeiro caso de Aids no Brasil foi diagnosticado em 1982. A partir deste ano, o número de mortes começou a subir assustadoramente. Os primeiros pacientes nem sabiam que o HIV existia. De repente, caíam doentes, com infecções que se repetiam uma depois da outra até a morte.
“Nós infectologistas sempre tivemos a possibilidade de tratar e curar pessoas. De repente, uma geração toda morreu nas nossas barbas. Nós não tínhamos medicamentos, estávamos aprendendo a tratar as infecções e foram perdas que causaram um desgaste emocional e pessoal muito grande para cada um de nós. Acho que todos nós deixamos de ser onipotentes”, admite o Dr. David Uip.
“Quando eu me infectei, há 18 anos, a gente ficava só esperando o dia de morrer. A gente só falava ‘Quando é que vai ser a minha vez?’ .Tanto que nós tínhamos um grupo de teatro para falar sobre o preconceito que a gente vivia e como isso nos matava mais rápido. Aí, o grupo de teatro acabou porque todos morreram”, relata a ativista Nair Britto.
Até a metade dos anos 1990, o preconceito contra a Aids e o alto custo do tratamento tornavam a vida dos doentes muito difícil. A situação só melhorou quando os portadores do vírus decidiram se organizar, mostrar o rosto e exigir que o estado garantisse o acesso aos medicamentos mais modernos.
“Eu fui parar em uma conferência no Canadá. Uma conferencia de Aids, internacional. E lá eu descobri que tinha remédio, que a gente podia tomar e viver mais. Aí, quando cheguei aqui no Brasil, em 1996, eu entrei na Justiça e consegui que um juiz percebesse a importância de eu ter esse acesso e concedeu uma liminar. Foi a primeira liminar que concedeu medicamento para Aids a uma pessoa”, conta Nair.
Nair estava desesperançada e lutar por estes direitos foi a forma que encontrou para seguir vivendo. Graças à ação de pessoas como ela, no Brasil, milhares de vidas foram salvas.
“Outras pessoas também foram buscar na Justiça esse direito, acabou que houve uma avalanche de ações e aí virou política universal de acesso a todo mundo. Acho que a força desta conquista foi tão grande que eu acabei vivendo”, se orgulha a ativista.
O programa brasileiro de combate a Aids reduziu muito o número de mortes. Em 1997, foi criada uma lei que garante o acesso de todos os brasileiros aos medicamentos contra o vírus.
O Brasil enfrentou a resistência de países como Alemanha, Suíça e EUA, onde estão os maiores laboratórios do mundo, mas conseguiu aprovar a declaração que permite a quebra de patentes de remédios para proteger a saúde pública, combater epidemias de doenças como Aids, tuberculose e malária e garantir que a população tenha acesso a medicamentos essenciais.
As políticas públicas brasileiras servem de exemplo para o mundo inteiro, mas, infelizmente, o preconceito da sociedade ainda persiste. A carioca Mara, evangélica, casou virgem aos 18 anos e foi infectada nas primeiras relações com o marido.
“Foi difícil entender como seria minha vida daquele momento em diante e fiquei sete anos sozinha, achando que era aquilo que Deus queria para minha vida. Então, já que Ele tinha levado meu primeiro esposo, eu achava que ia ser essa a realidade para minha vida daquele momento em diante. Aí eu conheci o Evandro através de torpedos, uma brincadeira em um site de relacionamento, onde a gente trocava mensagens, mais de 100 mensagens por dia. Ficamos longos três meses nos conhecendo através de torpedos. No nosso quinto encontro, eu falei para ele que eu era soropositiva porque eu tinha me infectado no meu primeiro casamento. No dia seguinte ao encontro, ele não mandou nenhum torpedo até 17h. Eu fiquei desesperada, eu falei : ‘nossa, eu acho que ele pensa que pega Aids através de torpedo, só pode ser’”, lembra Mara.
“Às 17h, eu tomei coragem, telefonei e perguntei por que ele não tinha mandado um torpedo, que se ele não quisesse ser meu amigo, eu ia entender. Ele disse: ‘não, Mara, eu estou trabalhando muito, eu estou no meu plantão. Daqui a pouco eu te mando uma mensagem’. E eu fiquei na expectativa de qual seria aquela mensagem”, conta.
“Em um primeiro momento, eu tomei um choque, fui educado ao falar, mas me choquei sim”, reconhece Evandro Trajano da Silva, companheiro de Mara.
O HIV não é transmitido pelo aperto de mão, pelo beijo ou por contato com objetos pessoais, como toalhas, talheres ou copos. Nem quando uma gota de sangue infectado cai sobre a pele íntegra.
“É obvio que a gente ainda vai ter desigualdade e preconceito, mas eu acho que hoje está todo mundo parando, nem que seja um pouquinho, para pensar sobre isso e eu acho que a gente vai construindo uma sociedade melhor, um mundo melhor. Essa é a minha visão de presente. E a minha visão de futuro é a cura. E a cura não só do vírus, mas a cura mesmo dessa ideia de exclusão, que eu acho que é a que dói mais”, afirma Nair Brito.
“Depois de muita reflexão eu pensei e vi que não tinha nada a ver, que eu poderia sim ter um relacionamento com ela, independentemente de ela ser soropositivo ou não”, relata Evandro.
“E às 18h, quando ele saiu do plantão, ele mandou uma mensagem que dizia o seguinte: ‘Mara, não é porque eu descobri que a rosa tem espinhos que eu vou deixar de admirar sua beleza e o seu perfume’”, conta Mara.
Pessaol está matéria foi exibida no Fantástcio do dia 30/01 e achei muito interessante,muitos podem não ter visto a matéria então segue ela na integra para que todos saibam mais ainda sobre a doença,e lógico não podemos deixar de nos proteger porque essa doença leva a óbito e precisamos ter consiceência de tudo que ela nos causa,mas Deus em sua infinita bondade esta ajudando os médicos a descobrirem formas de minimizar esse virus!E assim ajudam as mulheres portadoras a não transmitirem o vírus aos seus filhos!
Beijos
Euselene
Nenhum comentário:
Postar um comentário